Maria, Mãe de Deus

soleniIniciamos o novo ano civil com o Dia Mundial da Paz (49º), que contempla o tema: “Vence as indiferenças e conquista a paz”! Nesse mesmo dia, a solenidade litúrgica que encerra a oitava do Natal é a de “Santa Maria, Mãe de Deus”.

Em tempos de tantos vilipêndios à nossa fé, em especial a Maria e a Jesus, esta celebração é o momento de reafirmarmos a nossa vida cristã diante de tantas ofensas que hoje ocorrem em nossa sociedade dita “cristã”. Diante disso tudo, somos chamados ainda mais a aprofundar a nossa fé e pedir ao Senhor que a aumente e nos faça colocá-la em prática com a graça de Deus.

A afirmação dogmática de Maria, mãe de Deus, vem sendo trabalhada por vários Concílios Ecumênicos: em 325 o Concílio de Nicéia e em 381 o Concílio de Constantinopla procuraram responder a respeito do Mistério da consubstancialidade de Deus uno e trino, Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem. No terceiro Concílio Ecumênico, o de Éfeso, em 431, foi declarado que Santa Maria é a Mãe de Deus. Muitos não compreendiam e até pessoas de igreja como Nestório, patriarca de Constantinopla, ensinavam de maneira errada: que no mistério de Cristo existiam duas pessoas: uma divina e uma humana, mas não é isso que testemunha a Sagrada Escritura. Jesus Cristo é verdadeiro Deus em duas naturezas e não duas pessoas, uma natureza humana e outra divina; e a Santíssima Virgem é, consequentemente, Mãe de Deus.

No século IV, ensinava o bispo Santo Atanásio: “A natureza que Jesus Cristo recebeu de Maria era uma natureza humana. Segundo a Divina Escritura, o corpo do Senhor era um corpo verdadeiro, porque era um corpo idêntico ao nosso”. Maria é, portanto, nossa irmã, pois nós todos somos descendentes de Adão. Fazendo a relação deste mistério da encarnação, no qual o Verbo assumiu a condição da nossa humanidade com a realidade de que nada mudou na Trindade Santa, mesmo tendo o Verbo tomado um corpo no seio de Maria, a Trindade continua sendo a mesma; sem aumento, sem diminuição; é sempre perfeita. Nela, reconhecemos uma só divindade. Assim, a Igreja proclama um único Deus em três pessoas. Por isso, a Santíssima Virgem, mãe de Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, é a Mãe de Deus.

Neste primeiro dia do ano civil, a Igreja celebra a Solenidade da Virgem Maria, Mãe de Deus. Título mariano de grande importância para nós cristãos. Nós nos colocaremos na escola de Maria, a discípula perfeita, a primeira pregadora da Divina Misericórdia. Nesta meditação, vemos o sentido do “sim” de Maria, a abertura para Deus que a coloca numa disponibilidade aberta ao horizonte da fé voltado para o ilimitado.

Neste dia é a conclusão da Oitava do Natal, dia no qual a Igreja volta-se para a Virgem que gerou em seu seio e deu à luz o verdadeiro Deus feito homem. Chegou a plenitude dos tempos e “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher”, aquela mesma que os pastores encontraram velando o “recém-nascido deitado na manjedoura”. Somos gratos à Virgem Santa e, contemplando o seu Filhinho, reconhecemos nele o Deus perfeito e a proclamamos verdadeiramente Mãe de Deus: “Salve, ó Santa Mãe de Deus! Vós destes à luz o Rei que governa o céu e a Terra pelos séculos eternos!’ – assim canta a Igreja hoje, saudando a Toda Santa Virgem Maria. Nossos irmãos orientais, de rito bizantino, no Natal, cantam: “Ó Cristo, que podemos oferecer-vos como dom por vos terdes manifestado sobre a Terra na nossa humanidade? Com efeito, cada uma das vossas criaturas exprime a sua ação de graças, e a vós traz: os Anjos, o seu cântico; o céu, uma estrela; os Magos, os seus dons; os Pastores, a admiração; a terra, uma gruta; o deserto, uma manjedoura; e nós, uma Virgem Mãe”! Eis, pois, caríssimos irmãos, nosso presente ao Salvador: a mais bela flor de nossa raça, o mais belo membro da Igreja, a Virgem Maria.

Os evangelhos, sobretudo o de São João, sublinham e testemunham a vinda de Deus na carne humana. O papel de Maria recebe relevo nas mãos de São Lucas. Para São Mateus, ela faz o elo de ligação entre as duas alianças. São Marcos, ao sublinhar a humanidade de Cristo, ressalta sua origem, sua procedência histórica. Em tudo isto, podemos ler indiretamente e de modo implícito o papel particular de Maria no evento da salvação, que depois será confirmado nos séculos seguintes, quando os bispos reunidos em Concílio declaram Maria como a Mãe do Verbo encarnado, a mãe do Filho de Deus, e por isto a Mãe de Deus.

Ao recordar a Maternidade Divina de Nossa Senhora, a Igreja recorda também as condições maravilhosas dessa maternidade: ela aconteceu de modo virginal! Com efeito, a Mãe do Senhor concebeu virginalmente, virginalmente deu à luz e virgem permaneceu para sempre! A Virgem não somente concebeu, mas também virginalmente deu à luz um filho – eis a profecia de Isaías (cf. 7,14). A Igreja canta esse mistério com palavras admiráveis: Na sarça que Moisés via arder sem se consumir, admiramos o sinal da vossa incomparável virgindade, ó Mãe de Deus!” e ainda, pensando na porta selada, pela qual somente o Senhor passaria, como profetizou Ezequiel (cf. 44,2), a Igreja exclama: “A porta eterna do Templo eternamente fechado, feliz e pronta se abre somente ao Rei esperado”.

E, como penhor de que nossas preces serão ouvidas, supliquemos à Mãe de Deus toda Santa, toda Misericordiosa: “À vossa proteção recorremos, ó Santa Mãe de Deus! Protegei os pobres, ajudai os fracos, consolai os tristes, rogai pela Igreja, protegei o clero, ajudai-nos todos, sede nossa salvação! Santa Maria, sois a Mãe dos homens, sois a Mãe do Cristo que nos fez irmãos! Rogai pela Igreja, pela humanidade e fazei que, enfim, tenhamos paz e salvação”!

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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