Congregações Marianas: 300 anos de bênçãos junto a Mãe Aparecida – Parte 1

mae_de_deus_c_pastroINTRODUÇÃO

Uma alegria, ser congregado mariano e poder experimentar às bênçãos de Maria e a ternura de Deus em nossas vidas. Mas, ao alargar nosso horizonte, experimentamos, na realidade da vida uma “época de mudanças”, que nos traz, em alguns momentos, um certo desencanto.

Diante do fracasso das possibilidades da razão moderna, toma-se o caminho da acomodação ao agora, ao presente, que deve ser vivido com o maior prazer possível. O passado, com suas experiências e tradições, é descartado. O futuro, com seus projetos a serem construídos, simplesmente é desconsiderado. A falta de sentido da vida campeia pelo mundo. Volta-se para o máximo de diversão (o lazer), para a busca do corpo perfeito (estética); constrói-se a sociedade da imagem, dos memes, dos whatApps, em que valem são as regras do marketing, o espetáculo. Abandona-se as utopias, os compromissos éticos e históricos.

Através da busca de uma “vida leve” longe de sofrimentos, busca-se todo tipo de terapias, técnicas de relaxamento, expansão da consciência. A religião torna-se “show” (espetáculo), terapia ou relação mercantilista dentro do individualismo cada vez mais exacerbado.

Tudo se torna líquido: o amor, as relações, a ética, a sociedade (cf. Zygmunt Bauman)

Diante de tamanha crise na sociedade, como é possível viver à experiência mariana da consagração a Nossa Senhora, numa sociedade individualista? – Qual a originalidade de nossa Consagração frente a este “mundo líquido”?

Como o cristão é uma pessoa que vive em estado de eleição, entramos na vida enfrentando mil situações. E, assim vamos sempre avante, mudando a direção a cada instante, sendo donos do caminho pela decisão que tomamos. Este é o Princípio e Fundamento, discernir “o tanto quanto” tal proposta me leva para Deus e o “tanto quanto” tal proposta não me leva para Deus.

A luz desta introdução, quero dividir este trabalho em três partes, para tentar responder as questões apresentadas. Na primeira vamos discorrer sobre a Ternura de Deus, na segunda parte alguns comentários históricos no contexto dos trezentos anos do aparecimento da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, e por fim falaremos de Nossa Consagração aplicado a toda vivacidade dos fatos da imagem e da Ternura de Deus.

 

MARIA E A TERNURA DE DEUS

Santa Mãe Maria, nesta travessia,
cubra-nos teu manto cor de anil. 
Guarda nossa vida, Mãe Aparecida, 
Santa Padroeira do Brasil!

Todo ano novo é uma travessia. Este ano de 2017 não será diferente às congregações marianas. Como o verso da bela canção de autoria do Maestro José Acácio Santana (†2011), nos aponta que faremos a travessia cobertos com o manto de Nossa Senhora Aparecida, para guardar nossa vida de todos os males impostos. Assim será o Ano de 2017. Aproveitemos esta graça!

Agora sim, sobre a Ternura de Deus: – Podemos comparar, que o amor materno é análogo ao amor fontal do Criador, pois a ternura que existe no coração de uma mãe é como o sacramento da inefável ternura do Mistério de Deus. Assim, Deus é um Pai que tem um coração e entranhas de Mãe.

No seio de Maria Virgem, floresceu uma nova humanidade, um mundo novo, nascido da contemplação de Maria, do silêncio, da pobreza e da humildade desta mulher que se esvaziou de si mesma, para tornar-se transparência da presença divina.

Em 1974, o Papa Paulo VI (†1978) publicou na Exortação apostólica Marialis Cultus, que Maria é exemplar. “Ela aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus (Lc 1,38), porque soube escolher a sua palavra e pô-la em prática; porque a sua ação foi animada pela caridade e pelo espírito de serviço; e porque, em suma, Ela foi a primeira e a mais perfeita discípula de Cristo”. E, continua o Papa: “longe de ser uma mulher passivamente submissa ou de uma religiosidade alienante, foi uma mulher forte, que conheceu de perto a pobreza e o sofrimento, a fuga e o exílio”.

Sabemos que a teologia e a espiritualidade marianas têm sólidas raízes nas Sagradas Escrituras. É da Bíblia que parte as atuais reflexões mariológicas. Maria, personifica o “Resto de Israel” e merece o título de “Filha de Sião”. No Novo Testamento, à objeção de Maria, o Anjo responde: “O Espírito te cobrirá com a sua sombra”. Em outras palavras: “Deves confiar. Serás fortalecida e protegida por Deus”. Desta forma, o “Sim” de Maria é o sim do Resto de Israel e o sim da humanidade, que se abre à esperança da salvação.

Em muitos cristãos ainda persiste o preconceito que Deus é um Pai exigente. Mas, não é esta a imagem de Deus, que Maria nos transmite. O Deus de Maria é um Deus terno e cuidadoso como uma mãe. O Deus que quis que seu Filho nascesse, como todo ser humano, das entranhas maternas de uma mulher que não pode ser senão um Deus amoroso e terno.

A ternura é amar profundamente, ter misericórdia, ser compassivo, dedicação, cuidado do outro. Tais vocábulos expressam o sentimento de amor localizado na parte mais profunda da pessoa, nas entranhas ou “vísceras” ou “ventre materno”, de onde provém o sentimento de ternura. “Mesmo que uma mulher esqueça o filho de suas entranhas, o Senhor não se esquecerá do Israel restaurado” (Is 49,15); “Lembra-te, Senhor, do teu amor e da tua fidelidade para sempre” (Sl 25,6; cf. 40,12).

No Novo Testamento: “A ternura de Jesus revela o que de mais humano existe em Deus e o que de mais divino existe no ser humano”. Bem como na Patrística podemos destacar Clemente de Alexandria (†215): “pela sua misericórdia divindade, Deus é Pai. Mas a ternura que tem para conosco transforma-o em Mãe”.

Mas, o Espírito Santo, que em hebraico é feminino (ruah) e em grego neutro (pneuma), na Bíblia tem acentos maternais. Ele/Ela é “doador(a) de Vida”. No início dos tempos pairou sobre as águas, transformando o caos em Cosmos; na plenitude dos tempos, cobriu Maria com sua sombra; e, a partir de Pentecostes, consola, fortalece e dá ousadia aos discípulos e às discípulas. Ele é visto como o “Amor maternal Incriado”.

A consagração a Maria, promovida pela Congregações Marianas (desde 1576), bem como por São Luis Maria Grignion de Montfort (†1716), perdura em nossos dias, onde podemos contemplar Maria como o “rosto materno de Deus”. Na figura de Maria, a Mãe de Jesus, nós veneramos o protótipo da Mãe, cujo amor nos protege e acompanha ao longo de toda nossa vida.

Bem nos recorda o Papa emérito Bento XVI, numa alocução de 04/11/2009, lembrando a controvérsia entre o místico Bernardo de Claraval (†1153) e o filósofo Abelardo (†1142): “Poderíamos distinguir “a teologia do coração” e a “teologia da razão” – Se a razão nos obriga a moderar o fervor mariano, especialmente no contexto do diálogo ecumênico, o coração nos pede exaltar a figura da Mãe de Jesus, seguindo a tradição de santos e poetas”.

Concluímos esta primeira parte com trecho da canção “A ti meu Deus” do Pe. Zezinho:

A tua “ternura” Senhor vem me abraçar
E a tua bondade infinita me perdoar 
Vou ser o teu seguidor e te dar o meu coração
Eu quero sentir o calor de tuas mãos.

Nas nossas angústias e nas nossas alegrias, recorremos a Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, com a esperança de que Ela seja nossa “Advogada”.

Amparados pela ternura de Deus, voltemos ao ano de 1717, onde tudo começou e nessa travessia, como se fez o milagre de Aparecida, há 300 anos abençoando nosso Brasil.

continua…

Referências bibliográficas:

Palaoro, A., OS EE NO CONTEXTO PÓS-MODERNO, Curso no Centro de Espiritualidade Inaciana, RJ, 2012.
Quevedo, L.G., MARIA E A TERNURA DE DEUS, artigo na Revista Itaici – Revista de Espiritualidade Inaciana, nº 78, 2009.
Fioris, S., Meo, S., DICIONÁRIO DE MARIOLOGIA, verbete consagração, Paulus, 1995.
 
Eduardo Lopes Caridade
Departamento de Formação

2 Responses to “Congregações Marianas: 300 anos de bênçãos junto a Mãe Aparecida – Parte 1”

  1. Júlio Cesar Souza Lima disse:

    Excelente texto para estudo e reflexão sobre o Ano Mariano, recomendo que todas as Congregações Marianas façam a divulgação deste importante tema. E que aproveitemos este tempo para promover ainda mais a devoção a Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Salve Maria!

  2. Nathalia disse:

    Bonito texto, bonita reflexão, me tocou ao ler, Maria nos dá um exemplo de fortaleza, santidade, obediência e amor tão único. Santa mãe de Deus protegei-nos e seja nossa intercessora junto ao pai.

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